A Virtude da Veracidade (parte 2 de 2): Mentira e Hipocrisia

Assim como a veracidade é o pilar do caráter da pessoa digna e o trampolim para sua virtuosidade, a falsidade, seu oposto, é a fundação da depravação de uma pessoa e a plataforma de lançamento para sua perversidade.  Assim como a veracidade de uma pessoa começa a partir de seu interior – ou seja, é um reflexo de um estado de fé verdadeira – a desonestidade de uma pessoa, a mentira e o engodo também são reflexos de seu estado interior.  É por isso que Deus menciona a veracidade como sendo o oposto da hipocrisia:

“Deus recompensa os verazes, por sua veracidade, e castiga os hipócritas como Lhe apraz; ou então os absolve, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.”

(Alcorão 33:24)

... e por que Ele menciona a sinceridade como uma marca de veracidade.

“De modo que Deus possa recompensar os verazes por sua veracidade...”

Não é de se admirar que as mais virtuosas e verazes das pessoas, os profetas de Deus[1] e seus verdadeiros seguidores, não foram desmentidos, denunciados, antagonizados, oprimidos e rejeitados exceto por aqueles dados a desonestidade, engodo e hipocrisia.

“Os que forjam mentiras são aqueles que não crêem nos versículos de Deus. Tais são os mentirosos.”

(Alcorão 16:105)

Isso é com relação à falsidade na fé.  Quanto à falsidade nos atos, Deus afirma no Alcorão:

“… para testar quem de vós melhor se comporta.”

(Alcorão 67:2)

Um sábio do período inicial do Islã, Fudail bin Iyaad, comentou sobre esse versículo, explicando:

“quem de vós melhor se comporta” significa “o mais sincero e correto.” Se o ato é sincero e não é correto, não será aceito e se é correto, mas não é sincero, não será aceito.  Não será aceito até que seja ao mesmo tempo sincero e correto!”

Um exemplo cotidiano de como a sinceridade e correção de ações são com frequência subvertidas pela falsidade, é na compra e venda de bens.  Por isso o Profeta disse:

“Se eles (as partes entrando em uma transação) são verazes e explicam (qualquer deficiência em seus produtos), sua transação será abençoada. Mas se mentirem e ocultarem (qualquer deficiência em seus produtos), as bênçãos de sua transação será erradicada.”[2]

E o que é falsidade no falar?  Falsidade da língua, ou o que é mais comumente referido como mentira, é uma característica rejeitada pelo mundo inteiro – mesmo que seus habitantes caiam nela de tempos em tempos.  Afinal, se Deus puniria seu último e maior profeta caso ele mentisse...

“E se (o Mensageiro) tivesse inventado alguns ditos, em Nosso nome certamente o teríamos apanhado pela destra; E então, Ter-lhe-íamos cortado a aorta, e nenhum de vós teria podido impedir-Nos.”

(Alcorão 69:44-7)

... então como mentir poderia ser aceitável de mais alguém?!  E ele, o Profeta Muhammad, o veraz, disse:

“A fé de um servo não será digna até que seu coração seja digno e seu coração não será digno até que sua língua seja digna, e um homem cujo vizinho não está a salvo de seu dano não entrará no Paraíso.”[3]

O Profeta disse:

“Uma pessoa mente e mente, até que seja registrada com Deus como um mentiroso habitual.”

(Saheeh Al-Bukhari)

Sendo assim, o mentiroso habitual é desprezado, verdadeira e completamente desprezado, por todos – até mesmo por seu próprio grupo – já que ninguém pode confiar em um mentiroso, nem mesmo outros mentirosos.  E assim como clareza no falar é um sinal de veracidade, a ambiguidade, a insinuação, o sarcasmo e outras formas de engodo e malandragem na forma de falar são denunciadas no Islã.  Até mentir por brincadeira foi condenado pelo Profeta quando ele disse:

“Garanto uma morada no meio do Paraíso para aqueles que abandonam a mentira até mesmo por brincadeira.”[4]

...e seu dito:

“Ai da pessoa que mente para fazerem as outras rirem! Ai dele, ai dele!”[5]

O amigo mais próximo do Profeta e sucessor temporal imediato, Abu Bakr as-Şiddeeq (ou seja, o veraz – chamado assim pelo Profeta devido à veracidade de sua fé), posteriormente disse:

“Cuidado com a mentira, porque ela se opõe à verdadeira fé.”[6]

E a filha de Abu Bakr, Aicha, que foi a esposa amada do Profeta, mencionou que:

“Não existe característica mais repugnante ao Mensageiro de Deus, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, do que a mentira.”[7]

É impedimento suficiente para a mentira o fato de ser listada como uma característica da mais miserável das condições: a hipocrisia.  O Profeta Muhammad disse:

“Os sinais do hipócrita são três: quando ele fala, mente; quando faz uma promessa, não a cumpre; e quando algo lhe é confiado ele trai essa confiança.”[8]

Não aprendemos somente sobre a repugnância de mentir diretamente, mas o Islã também nos educa de forma misericordiosa sobre os perigos de tudo que indiretamente leva a mentira.

Novamente de Aicha aprendemos que o Profeta invocava seu Senhor suplicando: “Ó Deus!  Busco refúgio em Ti de todos os pecados e das dívidas.”  Quando perguntado: “Ó Mensageiro de Deus!  Frequentemente buscas refúgio das dívidas com Deus!”  O Profeta de Deus, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, respondeu: “Se uma pessoa tem dívidas, ela mente quando fala e quebra suas promessas quando as faz.”[9]

Na mesma linha, o Profeta explicitamente ordenou a seus seguidores:

“Deixe aquilo que lhes causa dúvidas por aquilo que não lhes causa dúvidas, porque na veracidade reside a tranquilidade e na mentira reside a dúvida.”[10]

Empenhar-se pela veracidade, em espírito, palavra e atos, é uma questão que requer a perseverança suprema do crente, assim como a vigilância suprema contra os perigos da falsidade, falta de sinceridade, engodo e hipocrisia.

“Deus recompensa os verazes, por sua veracidade, e castiga os hipócritas como Lhe apraz; ou então os absolve, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.”

(Alcorão 33:24)

[1] O Companheiro Anas b. Malik relatou que o Profeta até mencionou como: “Um profeta nem mesmo pisca!” (Abu Dawud, Nisaa'ee, Hakim, Ahmad)

[2] Relatado por Hakim b. Hizam, em Saheeh Al-Bukharie Saheeh Muslim.

[3] Relatado pelo Companheiro, Anas b. Malik em As-Saheehah.

[4] Relatado por Abu Umamah, em At-Tirmidhi.

[5] Relatado por Mu‘awiyah b. Jaydah al-Qushayri em Abu Dawud.

[6] Bayhaqi, Shu‘ab al-Iman.

[7] Ahmad.

[8] Relatado pelo Companheiro, Abu Hurayrah, em Saheeh Al-Bukhari e Saheeh Muslim.

[9] Saheeh Al-Bukhari.

[10] Relatado por Al-Hasan b. Ali, em At-Tirmidhi.

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