Assim como a veracidade é o pilar do caráter
da pessoa digna e o trampolim para sua virtuosidade, a falsidade, seu oposto, é
a fundação da depravação de uma pessoa e a plataforma de lançamento para sua
perversidade. Assim como a veracidade de uma pessoa começa a partir de seu
interior – ou seja, é um reflexo de um estado de fé verdadeira – a
desonestidade de uma pessoa, a mentira e o engodo também são reflexos de seu
estado interior. É por isso que Deus menciona a veracidade como sendo o oposto
da hipocrisia:
“Deus recompensa os verazes, por sua veracidade, e castiga os hipócritas como Lhe apraz; ou então os absolve, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.”
... e por que Ele menciona a
sinceridade como uma marca de veracidade.
“De modo que Deus possa recompensar os verazes
por sua veracidade...”
Não é de se admirar que as mais
virtuosas e verazes das pessoas, os profetas de Deus e seus verdadeiros seguidores,
não foram desmentidos, denunciados, antagonizados, oprimidos e rejeitados
exceto por aqueles dados a desonestidade, engodo e hipocrisia.
“Os que forjam mentiras são aqueles que não crêem nos versículos de Deus. Tais são os mentirosos.”
Isso é com relação à falsidade na fé. Quanto
à falsidade nos atos, Deus afirma no Alcorão:
“… para testar quem de vós melhor se comporta.”
Um sábio do período inicial do Islã,
Fudail bin Iyaad, comentou sobre esse versículo, explicando:
“quem de vós
melhor se comporta” significa “o mais sincero e correto.” Se o ato é sincero e
não é correto, não será aceito e se é correto, mas não é sincero, não será
aceito. Não será aceito até que seja ao mesmo tempo sincero e correto!”
Um exemplo cotidiano de como a
sinceridade e correção de ações são com frequência subvertidas pela falsidade,
é na compra e venda de bens. Por isso o Profeta disse:
“Se eles (as partes entrando em
uma transação) são verazes e explicam (qualquer deficiência em seus produtos),
sua transação será abençoada. Mas se mentirem e ocultarem (qualquer deficiência
em seus produtos), as bênçãos de sua transação será erradicada.”
E o que é falsidade no falar? Falsidade
da língua, ou o que é mais comumente referido como mentira, é uma
característica rejeitada pelo mundo inteiro – mesmo que seus habitantes caiam
nela de tempos em tempos. Afinal, se Deus puniria seu último e maior profeta
caso ele mentisse...
“E se (o Mensageiro) tivesse inventado alguns ditos, em Nosso nome certamente o teríamos apanhado pela destra; E então, Ter-lhe-íamos cortado a aorta, e nenhum de vós teria podido impedir-Nos.”
... então como mentir poderia ser
aceitável de mais alguém?! E ele, o Profeta Muhammad, o veraz, disse:
“A fé de um servo não será digna
até que seu coração seja digno e seu coração não será digno até que sua língua
seja digna, e um homem cujo vizinho não está a salvo de seu dano não entrará no
Paraíso.”
“Uma pessoa mente e mente, até que seja registrada com Deus como um mentiroso habitual.”
Sendo assim, o mentiroso habitual é
desprezado, verdadeira e completamente desprezado, por todos – até mesmo por
seu próprio grupo – já que ninguém pode confiar em um mentiroso, nem mesmo
outros mentirosos. E assim como clareza no falar é um sinal de veracidade, a
ambiguidade, a insinuação, o sarcasmo e outras formas de engodo e malandragem
na forma de falar são denunciadas no Islã. Até mentir por brincadeira foi
condenado pelo Profeta quando ele disse:
“Garanto uma morada no meio do
Paraíso para aqueles que abandonam a mentira até mesmo por brincadeira.”
...e seu dito:
“Ai da pessoa que mente para
fazerem as outras rirem! Ai dele, ai dele!”
O amigo mais próximo do Profeta e
sucessor temporal imediato, Abu Bakr as-Şiddeeq (ou seja, o veraz –
chamado assim pelo Profeta devido à veracidade de sua fé), posteriormente
disse:
“Cuidado com a mentira, porque ela
se opõe à verdadeira fé.”
E a filha de Abu Bakr, Aicha, que foi a
esposa amada do Profeta, mencionou que:
“Não existe característica mais
repugnante ao Mensageiro de Deus, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam
sobre ele, do que a mentira.”
É impedimento suficiente para a mentira
o fato de ser listada como uma característica da mais miserável das condições:
a hipocrisia. O Profeta Muhammad disse:
“Os sinais do hipócrita são três:
quando ele fala, mente; quando faz uma promessa, não a cumpre; e quando algo
lhe é confiado ele trai essa confiança.”
Não aprendemos somente sobre a
repugnância de mentir diretamente, mas o Islã também nos educa de forma
misericordiosa sobre os perigos de tudo que indiretamente leva a
mentira.
Novamente de Aicha aprendemos que o
Profeta invocava seu Senhor suplicando: “Ó Deus! Busco refúgio em Ti de
todos os pecados e das dívidas.” Quando perguntado: “Ó Mensageiro de
Deus! Frequentemente buscas refúgio das dívidas com Deus!” O Profeta de
Deus, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, respondeu: “Se
uma pessoa tem dívidas, ela mente quando fala e quebra suas promessas quando as
faz.”[9]
Na mesma linha, o Profeta
explicitamente ordenou a seus seguidores:
“Deixe aquilo que lhes causa
dúvidas por aquilo que não lhes causa dúvidas, porque na veracidade reside a
tranquilidade e na mentira reside a dúvida.”
Empenhar-se pela veracidade, em
espírito, palavra e atos, é uma questão que requer a perseverança suprema do
crente, assim como a vigilância suprema contra os perigos da falsidade, falta
de sinceridade, engodo e hipocrisia.
“Deus recompensa os verazes, por sua veracidade, e castiga os hipócritas como Lhe apraz; ou então os absolve, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.”
[1] O Companheiro Anas b. Malik relatou que o Profeta até mencionou como: “Um profeta nem mesmo pisca!” (Abu Dawud, Nisaa'ee, Hakim, Ahmad)
[2] Relatado por Hakim b. Hizam, em Saheeh Al-Bukharie Saheeh Muslim.
[3] Relatado pelo Companheiro, Anas b. Malik em As-Saheehah.
[4] Relatado por Abu Umamah, em At-Tirmidhi.
[5] Relatado por Mu‘awiyah b. Jaydah al-Qushayri em Abu Dawud.
[6] Bayhaqi, Shu‘ab al-Iman.
[7] Ahmad.
[8] Relatado pelo Companheiro, Abu Hurayrah, em Saheeh Al-Bukhari e Saheeh
Muslim.
[9] Saheeh Al-Bukhari.
[10] Relatado
por Al-Hasan b. Ali, em At-Tirmidhi.