A Leitura Pública da Carta
Depois de Heráclito ter confirmado que
acreditava que Muhammad era um profeta, ele disse:
“Sabia que ele apareceria,
mas não sabia que seria um de vocês. Se o que dizem é verdade, ele governará o
solo debaixo de meus pés; se eu soubesse que o com certeza o encontraria em
pessoa, faria a jornada para encontrá-lo; e se estivesse com ele, lavaria seus
pés."
Isso está de acordo com a
colocação dessa história após o relato de ibn al-Natur da tentativa de
Heráclito prever o futuro astrologicamente. É aparente que ele “sabia”, ou
pelo menos suspeitava, que um poderoso profeta tinha surgido entre o povo
árabe. Foi nesse estágio que perguntou pela carta que tinha recebido do
mensageiro de Deus, para lê-la em voz alta para a assembléia.
“Quando Heráclito tinha
terminado seu discurso e tinha lido a carta, havia um grande alarido na corte
real e os mecanos foram expulsos. Abu Sufyan comentou em voz alta com seus
companheiros: “Os assuntos de ibn abi-Kabsha
se tornaram tão proeminentes que até o rei de Bani-Asfar (os de pele clara) o
teme.”
Abu Sufyan disse depois ao
narrador:
“Fiquei triste, por Deus, e reservado, certo de que os assuntos de Muhammad
emergeriam triunfantes até que Deus trouxe meu coração ao ponto de abraçar o
Islã.”
Heráclito em Homs
Enquanto isso, de acordo com a
narração de ibn al-Natur, Heráclito tinha escrito uma carta a um amigo em Roma
referente à carta que tinha recebido,
cujo conhecimento confiava ser comparável ao seu próprio. Então deixou
Jerusalém[4]
para Homs (Emesa, nos tempos romanos) na Síria, onde esperou a resposta.
“Quando recebeu a resposta
de seu amigo, viu que o homem concordava que os sinais portentavam o
aparecimento de um novo líder e que o líder era o profeta esperado. Com base
nisso, Heráclito convidou todos os nobres de Bizâncio para se reunirem em seu
palácio em Homs.
“Quando seus nobres tinham
se reunido, ordenou que todas as portas de seu palácio fossem fechadas. Então
se apresentou e disse: “Ó bizantinos! Se desejam o sucesso e buscam orientação
correta e querem que seu império permaneça, então façam uma promessa de aliança
com o profeta emergente!
“Ao ouvir seu convite, os
nobres da Igreja correram na direção dos portões do palácio como uma horda de
asnos selvagens, mas encontraram as portas fechadas. Heráclito, percebendo seu
ódio em relação ao Islã, perdeu a esperança de que um dia abraçariam o Islã e
ordenou que fossem trazidos de volta para a sala de audiências. Após
retornarem, ele disse: “O que eu disse foi simplesmente para testar a força de
sue convicção e eu a vi.
“O povo se prostrou
perante ele e ficou satisfeito com ele e Heráclito se afastou da fé.”
Uma lenda se desenvolveu ao
redor dos eventos em Homs. Diz-se que Heráclito primeiro sugeriu que seus
bispos abraçassem o Islã, mas quando recusaram sugeriu que o império pagasse
tributo ao profeta do Islã. Quando recusaram isso, sugeriu fazer a paz com os
muçulmanos aceitando um pacto de não-beligerância. Quando isso também foi
recusado, deixou a Síria em direção a Bizâncio e abriu mão de todo o interesse
em preservar o império ao sul e leste de Antioquia – nunca partindo em campo
contra o avanço muçulmano em pessoa e enviando generais incompetentes como defensores
de suas terras no Oriente Médio. O que é certo é que tratou a carta e a
reivindicação à missão profética seriamente e fez todo o esforço para mudar de
opinião, antes de voltar atrás.
A Herança
O historiador al-Suhayli foi a
fonte de mais duas histórias associadas com a carta para Heráclito, ambas
incluídas por ibn Hajar no comentário sobre as histórias acima.[5]
Comentou que al-Suhayli se lembrou de ouvir de uma carta que
era mantida em uma caixa incrustada de diamante, o que mostrava o alto status de
seu dono, que tinha sido deixada como herança até aquele dia e tinha chegado às
mãos do rei de Franja.[6] Seus descendentes pensaram que tinha ficado sob sua posse na época
da conquista de Toledo[7]
e o comandante do exército muçulmano, Abdul Malik bin Saad veio a saber dela
através de um desses descendentes[8]
no século 12. Alguns dos companheiros de Abdul Malik relataram que o
comandante do exército muçulmano se sentou com o rei de Franja[9], levou a carta em seu
caixa incrustada de jóias. Quando Abdul Malik viu o pergaminho guardado
percebeu que era muito antigo e perguntou se podia beijar a venerável
antiguidade. Entretanto, o rei de Franja recusou.
Al Suhayli disse ainda que
ouviu por mais de uma fonte que o jurista Nuraddin ibn Saygh al-Dimashqi disse
que ouviu que Sayfuddin Flih al-Mansuri foi enviado pelo rei al-Mansur Qalaun com um presente para o
rei do Marrocos[11],
que então enviou o presente para o rei de Franja[12], em troca de um favor
não mencionado, que foi concedido. O rei de Franja convidou o mensageiro a
ficar em seu reino por um tempo, mas ele recusou a oferta. Antes de partir,
entretanto, o rei perguntou a Sayfuddin se gostaria de ver um valioso objeto
que podia ser de interesse para ele (como muçulmano). Então trouxe um baú
cheio de compartimentos, cada compartimento cheio de tesouros.
De um dos compartimentos tirou
uma longa e fina caixa incrustada de diamante (mais como um estojo de lápis). Abriu-a
e tirou um pergaminho. O papel antigo do pergaminho estava danificado e a
escrita nele tinha de certa forma desbotado, mas a maior parte tinha sido
preservada por ter sido colocado entre duas peças de seda quando foi enrolado
para armazenamento. O rei de Franja disse: “Essa é a carta que meu ancestral,
César, recebeu de seu profeta, que me foi transmitida como herança. Nosso
ancestral deixou um testamento que seus descendentes deviam manter essa herança
se desejassem governar o reino de forma duradoura. Com isso estamos fortemente
protegidos desde que respeitemos a carta e a mantenhamos oculta. Assim o reino
chegou até nós.” [13]
O quanto é exatamente válida a
reivindicação de que o reino de Heráclito (que tinha sido oficialmente o César
do império romano inteiro) tinha sido passado para ele é questionável, uma vez
que o império bizantino continuava a existir no leste e continuaria a existir
por mais 150 anos. Entretanto, Heráclito pode ter enviado a carta para Roma,
como mencionado antes, e a carta pode ter sido mantida lá e passada adiante
para a linha visigoda dos imperadores quando Charlemagne foi coroado imperador
em Roma, pelo Papa Léo III em 800 EC.
Não podemos dizer
categoricamente que a carta de fato sobreviveu aos séculos, embora essas
histórias apontem para essa possibilidade. Uma das cartas do profeta continua
a existir em seu pergaminho original no museu Topkapi.
Conclusão
Muitos podem pensar que
Heráclito secretamente se tornou muçulmano, porque procurou descobrir se a
reivindicação profética de Muhammad era verdadeira pela consideração de seu
histórico, motivações e efeitos sobre seu povo; seu caráter, realizações e
mensagem. A julgar por sua resposta para Abu Sufyan e o convite para seus
pilares de sociedade em Homs, parece que foi convencido de que Muhammad era
genuíno. Talvez seu coração estivesse inclinado na direção do monoteísmo
expresso por Muhammad em sua carta e certamente tentou seguir seu conselho de
evitar o pecado de desorientar aqueles que governava. Seus súditos,
entretanto, se mostraram tão fortes em sua rejeição que ele capitulou à pressão
deles, incapaz de se submeter a sua nova fé porque temeu a rebelião do povo. Por
essa razão, assim como o tio do profeta, Abu Talib, que acreditava que Muhammad
era um profeta e o protegeu durante sua vida madura até sua morte, mas não se
submeteu ao Islã devido à vergonha de seus pares, Heráclito morreu como um
descrente no Islã e no profeta de Deus.
[1]O profeta Muhammad, que a misericórdia e as bênçãos de Deus
estejam sobre ele.
[2]Ibn Abbas.
[3]É possível que enviou a verdadeira
carta do profeta com sua solicitação para acessá-la, embora isso não esteja
explícito na narração.
[4]Está registrado historicamente que em
março de 630 EC ele restaurou a cruz que os nestorianos tinham removido da
igreja do Santo Sepulcro, vários meses após seu encontro com Abu Sufyan. Deixou
Homs logo depois disso.
[5] Fat-hal-Bari de Ibn Hajar al-Askalani.
[6] ‘Franja’ é a palavra espanhola para o(s) reino(s) costeiros da
Península Ibérica. Nessa história os reis de Franja são das dinastias Jimenez e
Burgúndia de Astúrias, Galícia, Leão e Castela (que se dividiu de Leon). Leão
passou a existir quando o reino de Astúrias foi dividido em três em 910.
Ver (em inglês) (http://www.tacitus.nu/historical-atlas/regents/iberian/leon.htm).
[7] Por Alfonso VI 1085 EC, ou 478H.
[8] Os reis de Leão da Casa de Burgúndia.
[9] Embora o nome não seja mencionado, provavelmente foi Alfonso VII “o
imperador” ou Ferdinando II de Leão e Castela.
[10] Possivelmente o rei egípcio da dinastia Mameluca, que governou o
Egito de 1278-90 EC.
[11] Muito provavelmente Abu Yusuf Yaqub da dinastia Merínida, que
reinou de 1259-86 EC.
[12] Mais provavelmente, Alfonso X, rei
de Castela e Leão (1252-84EC). Tinha o título de Rex Romanorum (o rei
de Roma – Ver (em inglês): http://www.masterliness.com/s/Rex.Romanorum.htm), para o qual foi eleito, já que sua família era uma das que podiam
reivindicar descendência de Charlemagne. Ver
(em inglês): (http://www.masterliness.com/a/...