A tigela de ouro foi encontrada nos pertences de
Benjamim e seus irmãos ficaram atônitos. Rapidamente perceberam que o
ministro-chefe (José) seguiria suas próprias leis e manteria Benjamim como
escravo. Isso os perturbou muito. Temiam retornar ao pai sem seu amado filho
mais novo. Um dos irmãos se ofereceu para receber a punição no lugar de Benjamim,
mas a oferta foi recusada. Outro irmão, provavelmente o mais velho, escolheu
ficar no Egito enquanto os outros retornavam à terra natal para encarar o pai
Jacó. Quando os irmãos chegaram a casa foram imediatamente até o pai e
disseram:
"Ó pai, teu filho roubou e não declaramos mais do que sabemos, e não podemos nos guardar dos juízes. E indaga na cidade em que estivemos e aos caravaneiros com quem viajamos e comprovarás que somos verazes."
O profeta Jacó já tinha ouvido tudo isso antes. Quando
os irmãos traíram José e o jogaram no poço, foram até o pai implorando e
chorando e ainda assim suas palavras não passavam de mentiras. Dessa vez Jacó
se recusou a acreditar neles. Voltou-se para eles dizendo:
"Qual! Vós mesmos deliberastes cometer semelhante crime! Porém, resignar-me-ei a ser paciente, talvez Deus me devolva ambos, porque Ele é o Sapiente, o Prudentíssimo."
Jacó tinha passado anos sofrendo por José e confiando em
Deus. Quando essa nova tristeza tomou conta dele, sua primeira reação foi ser
paciente. Sabia, sem nenhuma dúvida, que os assuntos de seus amados filhos
mais novos eram controlados por Deus.
E apesar de confiar em Deus completamente, Jacó se
comportou como qualquer pai nas mesmas circunstâncias. Foi tomado pela dor e
chorou de maneira incontrolável. Lembrou-se de José e chorou até ficar doente e
perder a visão. Os irmãos estavam preocupados com sua dor e tristeza e
questionavam sua dor constante. Perguntaram a ele: "Chorará até o dia de sua
morte"? Jacó respondeu que só reclamava de sua dor e tristeza com Deus e que
ele (Jacó) sabia de Deus coisas que eles não sabiam. (Alcorão 12:86)
Embora muitos anos tivessem se passado, Jacó não tinha se
esquecido de seu filho José. Jacó refletiu sobre o sonho de José e entendeu
que o plano de Deus se concretizaria. Jacó estava profundamente magoado pela
perda de seus filhos, mas sua fé em Deus o sustentou e ordenou que seus filhos
voltassem ao Egito em busca de José e Benjamim.
José revelado
Os irmãos mais uma vez partiram na longa jornada para o
Egito. A fome tinha cobrado seu preço nas áreas vizinhas e o povo estava pobre
e fraco. Quando os irmãos ficaram diante de José, também estavam entre os
pobres. Seu nível de fraqueza os forçou a pedir caridade. Eles disseram:
"Ó excelência, a miséria caiu sobre nós e nossa família; trazemos pouca mercadoria; cumula-nos, pois, a medida, e faze-nos caridade, porque Deus retribui os caritativos."
José não conseguiu suportar ver sua família nessa
posição, embora aqueles fossem os homens que o tinham traído. Olhou para sua
família e, não conseguindo mais manter segredo, disse:
"Sabeis, acaso, o que nesciamente fizerdes a José e ao seu irmão com a vossa ignorância?"
Os irmãos reconheceram José imediatamente, não por causa
de sua aparência porque já o tinham visto antes muitas vezes, mas quem mais
saberia da verdadeira história de José, senão o próprio José?
"Disseram-lhe: És tu, acaso, José? Respondeu-lhes: Sou José e este é meu irmão! Deus nos agraciou com a Sua mercê, porque quem teme e persevera sabe que Deus jamais frustra a recompensa dos benfeitores."
Os irmãos ficaram com medo porque suas ações passadas
eram pecados graves e agora estavam em uma posição de fraqueza. Estavam com
medo diante do ministro-chefe do Egito que não era mais um menino pequeno e
bonito chamado José. Em seus testes e tribulações José, como seu pai,
encontrou conforto na submissão ao Deus Único. Compreendeu a paciência e as
qualidades de misericórdia e piedade imbuídas na verdadeira paciência. Olhou
para os seus irmãos que tremiam de medo e disse:
"Hoje não sereis recriminados! Eis que Deus vos perdoará, porque é o mais clemente dos misericordiosos."
José imediatamente fez planos para reunir sua família.
Pediu aos irmãos que retornassem ao pai e colocassem uma camisa antiga (de
José) sobre o rosto dele. Isso, disse ele, faria com que tivesse uma visão
límpida. Imediatamente, embora o homem estivesse tão longe, voltou seu rosto para
os céus e cheirou, acreditando que podia sentir o cheiro de José no ar. Esse é
um dos milagres, feito possivelmente por Deus, do profeta José. Quando os
irmãos chegaram colocaram a camisa sobre o rosto de Jacó e ele recobrou a
visão. Clamou:
"Não vos disse que eu sei de Deus o que vós ignorais?"
A família do profeta Jacó reuniu seus pertences e viajou
para o Egito. Jacó estava ansioso para se reunir com seus filhos. Foram direto
para José e o encontraram sentado em um trono. José falou com sua família
dizendo: entrem no Egito, se Deus quiser, em segurança.
O início do capítulo 12 do Alcorão, José, começou
com o menino José descrevendo seu sonho ao seu amado pai Jacó. Disse:
"Ó pai, vi, em sonho, onze estrelas, o sol e a lua; vi-os prostrando-se ante mim."
O Alcorão conclui a história de José da mesma forma que a
começou, com a interpretação do sonho. As onze estrelas eram seus irmãos, o
sol seu pai e a lua, sua mãe.
"José honrou seus pais, sentando-os em seu sólio, e todos se prostraram perante eles; e José disse: Ó meu pai, esta é a interpretação de um sonho passado que meu Senhor realizou. Ele me beneficiou ao tirar-me do cárcere e ao trazer-vos do deserto, depois de Satanás ter semeado a discórdia entre meus irmãos e mim. Meu Senhor é Amabilíssimo com quem Lhe apraz, porque Ele é o Sapiente, o Prudentíssimo."
A essência da história de José é paciência em face de
adversidade e tristeza. José enfrentou todas as tribulações com paciência e
confiança completa em Deus. Seu pai Jacó suportou sua dor e miséria com
paciência e submissão. Todos os capítulos do Alcorão foram revelados em épocas
particulares, em resposta a situações particulares. Esse capítulo foi revelado
ao profeta Muhammad em um momento de grande tristeza. De fato, o ano dessa
revelação ficou conhecido como "o ano da tristeza". O profeta Muhammad teve
que suportar a morte de sua amada primeira esposa Khadija e de seu tio Abu
Talib. Ambos tinham lhe dado conforto e apoio. Deus estava avisando ao
profeta Muhammad que a estrada podia ser longa e difícil, mas que a vitória
pertence aqueles que são pacientes e conscientes de Deus. A história de José é
uma lição para todos nós. A paciência verdadeira, que os sábios do Islã chamam
de paciência bela, é uma chave para o portão do paraíso.