Deus Todo-Poderoso é
distinto de Sua criação. Nada Dele reside nela, nem
há nada de Sua criação Nele.
Esse tema tem sido reiterado por todos os teólogos muçulmanos para
confirmar que não há espaço no Islã para a crença de Deus ser inerente em Sua
própria criação, um conceito conhecido como onipresença de Deus, ubiquidade ou
panteísmo (de pan- "todos" + theos "deus").
Esse conceito fundamenta quase todas as religiões e mitologias famosas do
mundo. Simplesmente faz da criação, ou parte dela, uma manifestação de Deus.
Teologias antropomórficas - aquelas que dão atributos humanos a Deus - adotam o
panteísmo como sua crença base. Cita-se o deus hindu Krishna:
"Existo em todas as criaturas,
Assim o homem disciplinado devotado
a mim
Percebe a unicidade da vida,
Onde quer que esteja, ele está mim"[3]
A religião pagã indígena do Japão
conhecida como Xintoísmo (literalmente caminhos dos deuses) confessa a crença
em Kami, que se refere à divindade, ou essência sagrada, que se manifesta em
formas múltiplas. Pode-se dizer que pedras, árvores, rios, animais, lugares e
até mesmo pessoas possuem a natureza de Kami. Kami e as pessoas existem dentro
do mesmo mundo e compartilham sua complexidade inter-relacionada.
Por que o Islã se opõe de forma tão
inabalável a essas noção unanimemente bem-vinda? Os sábios muçulmanos citam
mais de mil provas somente do Alcorão de que Deus está no status mais alto de
supremacia acima dos céus (acima de toda a criação):
"Glorifica o nome do teu Senhor, o Altíssimo."
"Temem ao seu Senhor, que está acima deles, e executam o que lhes é ordenado."
Isso, entretanto, não inviabiliza o
fato de que Deus tem conhecimento completo de Sua criação (sem ser parte dela).
Ele é o Criador e Sustentador de tudo e nada passa a existir, exceto pela Sua
vontade. Ele tem poder e autoridade completos sobre tudo que existe.
Isso não significa muito para aqueles
que não acreditam no Alcorão como a palavra de Deus. Entretanto, existem
imprecisões conceituais grosseiras resultantes de ter uma crença de que Deus
está física e literalmente permeando Sua criação. As ramificações desse
conceito são contra a lógica, a religião e a moralidade.
1- O panteísmo é uma forma de
ateísmo vivificado com emoções de reverência da criação ou, como coloca Richard
Dawkins, é um ateísmo sexuado.
É uma rejeição de Deus como um ser independente, interligado com canalização de
emoções religiosas para o mundo físico. O ateísmo simplesmente tem como
objetivo uma interpretação da vida sem Deus, enquanto que o panteísmo apela aos
cientistas que não conseguem passar sem um toque de espiritualidade quando veem
simetria e ordem na criação. Em uma de suas cartas, Albert Einstein, um
panteísta confesso, escreve "Nós seguidores de Spinoza vemos nosso Deus na
ordem e legitimidade maravilhosas de tudo que existe e em sua alma ["Beseeltheit"]
já que se revela no homem e no animal."[6]
Deus se torna testável e pesquisável e os cientistas podem ter seu próprio clero!!
2- As perguntas "Deus e o
universo começaram a existir ao mesmo tempo nesse caso?" e "Deus é o Criador do
universo?" tornaram-se redundantes nesse contexto. A resposta é Deus não pode
ter existido antes de uma coisa que Ele não pode ser concebido sem ela e como
Ele não pode ter criado uma coisa sem ser distinto dela, não pode ser um
criador de uma criação na qual está envolvido. Em resumo, essa abordagem
teológica incapacitou Deus totalmente e O fez incapaz de subsistir de maneira
autônoma por um segundo. Em seu Pérolas de Sabedoria, Ibn Arabi, o sufi
panteísta, explica o mistério de como Deus (Que é infinito) é capturado
inseparavelmente dentro da criação finita em uma metáfora marcante, mas de
difícil compreensão: O universo é o alimento de Deus e Deus é o alimento do
universo. Como a divindade devora o cosmos, assim também o cosmos devora a
divindade. Deus e o mundo, portanto, têm que ter começado juntos.
3- Desnecessário dizer, todos os
atos clássicos de adoração se tornam supérfluos: Se Deus me permeia e eu O
permeio, como e por que devo orar para qualquer coisa, quando tenho Deus dentro
de mim também. Em outras palavras, Deus está orando para Deus?!! De fato,
abster-se de todas as formas de adoração seria mais compreensível que fazer
qualquer uma, em vista desse imanentismo nivelador. A hierarquia espiritual de
toda a criação, que se supõe tem Deus no topo, colapsa em uma letargia
espiritual desmotivante. Ao invés disso, ouve-se termos nebulosos como
reverenciar e celebrar a natureza, que são somente atendentes a prior de
qualquer crença em Deus como um criador distinto, Que criou a natureza sem ser
idêntica a ela.
4- Pode-se agora compreender
facilmente por que certos objetos ou animais são adorados, especialmente se
mitos auxiliares falam de faíscas divinas neles. O Hinduísmo, intensamente
baseado na adoração de animais e idolatria da natureza, vê animais e elementos
da natureza como manifestações do poder divino. Essa elevação da natureza,
entretanto, não pode ser uma depreciação simultânea da Divindade que sempre foi
sinônimo de sacralidade e majestade. Deus se tornou tão indiscriminadamente
mundano que pode ser inerente na putrefação e em quantos locais sujos e
inapropriados se pode enumerar. O sufi panteísta Ibn Arabi, como todos os
comentadores dessa teoria, deixa de fora carniças, pântanos pútridos, malcheiroso
e estagnados e todos os locais desalinhados aos quais implicitamente Deus é
inerente e poeticamente seleciona onde acredita que Deus esteja:
Meu coração pode assumir
qualquer forma:
um prado para gazelas,
um claustro para monges,
Para os ídolos, solo sagrado,
Caaba para o peregrino em círculos,
as tábuas do Torá,
os pergaminhos do Alcorão.[7]
Compreensivelmente os sufis
são conhecidos pela busca de Fanaa’ (literalmente, auto aniquilação) que
tem como objetivo perder-se espiritualmente em Deus, mais uma vez um desvio
conceitual profundamente envolvido em mistério. Como em todos os paradigmas
paralelos, a incompreensibilidade reverenciada ordena aos crentes que apenas
tenham fé e nunca desistam de mistificar ao pensar em Deus, ao invés de
tentarem entender.
6- Ao se afastar
intencionalmente do conceito de um Deus transcendente e imponente, o panteísmo
dificilmente consegue elaborar qualquer base para uma ética concebível e
aplicável. Uma deidade transcendente é essencial para as normas valorizadas de
pecado e mal e a moralidade tem que encontrar outros motivadores além da
recompensa e punição, uma coisa que nenhum conjunto de leis humano provou ser
capaz de fazer.
De maneira
semelhante, a bipolaridade de bom e mal não pode ser apresentada nesse
contexto. Deus que se acredita ser todo bom e perfeito, não pode emanar o mal.
Assim, todas as manifestações do mal que vemos devem consequentemente ser
classificadas como bem. Tal teoria é injustificadamente inóspita aos valores
básicos que caracterizam a vida humana e entra em conflito com a lógica
simples. Quando impeditivos éticos e estímulo não estão presentes, prevalece a
anarquia e o impulso para o mal não pode ser mantido em cheque. "Se Deus
inclui tudo e Deus é perfeito ou bom, então tudo que existe deve ser perfeito
ou bom. Uma conclusão que parece ser totalmente contrária à nossa experiência
comum do que muito no mundo está muito longe de ser."
Ibn Taymiyyah,Al-Fatwa Al-Hamawyyh Al-Kubra, 370
Oxford Dictionary of English
Bhagavad Gita 31 do capítulo 6
http://en.wikipedia.org/wiki/Shinto.
Richard Dawkins, The God Delusion (2006) p. 40.
Max Jammer, Einstein and Religion: Physics and
Theology (1999), p. 51
Ibn Arabi, Tarjuman al-Ashwaq, a partir da tradução para o
inglês de Michael A. Sells, do Poema 11
The Stanford Encyclopedia of Philosophy